11 Fevereiro 2011

Histórias de moradores.....

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Conte-nos um pouco da sua história......mostrando uma Rochedo baseado nas experiencias individuais de cada um enquanto morador,ex morador e principalmente admirador dessa cidade tão querida por todos que tem o privilégio de conhe-la.

1º conto 11/02/2011


Velhos tempos... Belos dias...

Década de 50. Tempo de minha infância. Rochedo de ruas poeirentas, noites cálidas no verão, friorentas no inverno. Sempre aos extremos.

De manhã ou à tarde, dependendo da série (que, à época se chamava ano), aula no Grupo Escolar. Entretenimentos, muito poucos. Comprazia-me com as brincadeiras do recreio, na Escola; piques, cantigas de roda, soltar papagaios e correr com papa-ventos, nas ruas; vez por outra, carrinhos na minha própria casa, com amigos, ou na casa destes.

Nas brincadeiras de rua, às vezes a criançada era surpreendida pela presença de uma figura amiga: lá vinha o Padre Francisco Vital (Padre Chiquinho), trajando sua batina preta, junto à qual todas as crianças queriam se abrigar. Ele nos acolhia com afável carinho e prometia-nos santinhos, bastando que o procurássemos na Casa Paroquial.

Era também divertido ir à Estação Ferroviária, para saber se os trens expressos estavam atrasados. Às 13h20 minutos vinha o procedente de Ponte Nova; às 14h25 minutos, o que vinha do Rio de Janeiro, cruzando os mesmos na estação de Telhas, quando nos seus respectivos horários. Mas, por que saber se estavam atrasados? Ora, as correspondências chegavam ao então distrito nesses trens Expressos.

E, assim que o último deles passava, lá estava eu, nos Correios, para saber se havia alguma correspondência. Quantas vezes a Revista Sesinho (editada no Rio de Janeiro e patrocinada pelo SESI) me proporcionou imensas alegrias! Através dela, mantinha correspondência com outras crianças das mais diversas partes do Brasil.

Outro motivo que me levava à Estação Ferroviária: comprar do jornaleiro Mário, no Expresso procedente do Rio de Janeiro, as figurinhas da Branca de Neve.

Um outro álbum – este ficou famoso – chamava-se Seleções. As figurinhas eram embrulhadas juntas a uma bala e vendidas na padaria do Sr. Geninho. Este álbum, quem o preenchesse, ganhava prêmios, à escolha: bicicleta, patins, patinete, álbum ilustrado, etc. Só um habitante de Rochedo conseguiu preenchê-lo.

Mas já que mencionei a padaria do Sr. Geninho, quanta saudade nos trazem seus doces, pães das mais variadas espécies, picolés, sorvetes, pudins, caçarolas, biscoitos, balas, bolachas, tudo isto por fabricação própria. Um lacuna jamais preenchida, poder-se-ia dizer, insubstituível.

Abril, mês da colheita da cana de açúcar. Caminhões e mais caminhões transitando por Rochedo, em direção a Roça Grande, onde era moída e industrializada sob a forma de aguardente. E a poeira das ruas incomodando, à passagem desses caminhões.

Lembram-me as noites frias das coroações a Nossa Senhora, em maio. O coro, formado por umas dez pessoas, bem harmônico, animava as celebrações. Não perdia uma só coroação.

E as festas juninas? No clube ou na rua, com suas fogueiras, bombinhas e buscapés, varavam a noite de São João, com a sanfona animando as danças.

Havia, a essa época, tipos populares em nossas ruas: Quintino, que não admitia ser chamado Bocaiuva, chamando tísico àquele que o molestasse; Zé Lataxo, que não gostava de falar em mulheres; Maria Borges, muitas vezes internada em Barbacena, enlouquecida; Cecília, aparentando ter um só dente, freguesa dos gambás capturados em quintais, a fim de os preparar para comer; Maria Eugênia, beata zelosa, não permitia às crianças subirem nas dezenas de árvores copadas do adro da Igreja. E muitos outros...

Ah! As “peladas” à sombra de frondosas árvores de uma residência, disputadas rentes à linha férrea, a poucos metros da Igreja Matriz, sempre com as recomendações dos adultos: “Cuidado com o trem!” As partidas oficiais de futebol nunca davam aos rochedenses a esperança de levantar o campeonato. Pelo contrário, o time ficava quase sempre na lanterna. Mas que contava com uma torcida forte, isso contava! As mulheres, então, nem se fala. Até gritavam que entrariam em campo e tirariam a calça do juiz... Coisas da emoção...

Quanto à parte religiosa, ficaram na memória as coroações a que me referi anteriormente, os terços cantados nas ruas, tão comuns aos domingos, as procissões, cujo percurso era feito com muito respeito, inteiramente em silêncio. Se alguém conversasse, lá vinha o Sr. Juquinha passando “aquele sabão”! Filas, nestes atos litúrgicos, eram primorosas. O Sr. Juquinha não permitia que fossem duplas, tortas, interrompidas.

A partir de 1955, com meus estudos secundários em São João, minha juventude ficou dividida entre as duas cidades. Fins de semana retornava a Rochedo, para rever amigos e divertir-me com as brincadeiras dançantes no Clube. Carnavais, sempre em Rochedo.

Emancipando-se de São João Nepomuceno, pela lei n. 2764, de 30 de dezembro de 1962, o novo município de Rochedo de Minas foi solenemente instalado dia 01 de março de 1963, numa sessão para a qual tive a honra de ser convidado para secretário.

A partir daí, vieram as transformações. A cidade pavimentando suas ruas, arborizando-as, colocando placas e números indicativos nas casas.

Em 1962, minha família mudou-se para Juiz de Fora, a fim de que eu pudesse prosseguir estudos em curso superior. Nem terminara meus estudos, fui aprovado em concurso público para o Banco do Brasil, indo tomar posse em cidade do Rio Grande do Sul. Estes tempos me afastaram, muito a contragosto, de minha terra natal.

Hoje contemplo minha cidade com suas casas de modo geral tão bem conservadas, nossa Igreja Matriz limpinha, praças convidativas a um bom bate-papo...

Muita coisa poderia ainda ser aqui tratada, mas a memória já não me é a dos tempos de outrora. Quem sabe, outros comentários ficam para uma próxima oportunidade?

Ah! Minha infância em Rochedo!

Quanta lembrança, saudade!

São fatos para guardar

A chaves, pra eternidade.

JOMAR SOMEN


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